Um conjunto de vozes compostas por autoridades governamentais e activistas na República Democrática do Congo (RDC) mostrou-se preocupado com a normalização da violência obstétrica.
Trata-se de um fenómeno cada vez mais recorrente no país vizinho, uma vez que ainda é considerado tabu.
Segundo o Africanews, que reporta a matéria, a discussão voltou a ter maior visibilidade, após a divulgação de um vídeo filmado numa sala de parto de um hospital público em Kinshasa, onde um médico maltrata uma jovem, após dar à luz, enquanto haviam manchas de sangue na cama.
A agressão foi feita com recurso a um instrumento metálico, depois da parturiente recusar o tratamento, seguido de uma humilhação com bofetadas.
Para a primeira-ministra da República Democrática do Congo, Judith Suminwa, a violência obstétrica é "totalmente inaceitável”, enquanto a Primeira-Dama, Denise Tshisekedi, condena tais actos “abomináveis”, e pede celeridade quanto à aplicação de medidas para evitar que os abusos se perpetuem.
Durante o julgamento, o médico admitiu ter agredido a paciente, tendo alegado que ela sofria de hemorragia pós-parto e a falta de anestesia no hospital.
Além disso, o acusado recebeu uma pena suspensa de dois meses de prisão e o Estado foi condenado a pagar 2.500 dólares em indemnização.
Casos semelhantes têm sido relatados por mulheres como Sara, nome fictício, que contou ter sido submetida a uma episiotomia sem anestesia durante o parto em Kinshasa, uma experiência que descreveu como traumática e nunca querer mais reviver.
Já a Organização Mundial da Saúde, citada pela mesma fonte, informa que a mortalidade materna na RDC é de 427 mortes por cada 100.000 nascidos vivos contra 11 em comparação à Europa.
O país enfrenta falta de recursos e de pessoal qualificado, com apenas uma parteira para cada 16.000 pessoas, muito aquém da recomendação de uma para cada 5.000.
Nesse sentido, a activista Anny Modi, da Afia Mama, declara que a violência obstétrica tornou-se normalizada sob o argumento de salvar vidas, mas muitas vezes é motivada por julgamentos morais contra mulheres jovens e solteiras.
Por fim, o ministro da Saúde, Samuel-Roger Kamba, reconheceu que a violência verbal e física nas salas de parto é um abuso recorrente, então defende maior investimento na formação contínua de médicos e parteiras.